terça-feira, 2 de setembro de 2014


Capítulo 1 - O Pulsar do Coração

(Trilha Sonora sugerida: Legião Urbana - Sagrado Coração)
Na mais escura imensidão do infinito, as explosões de energia de uma estrela lembram as batidas de um coração, repletas de ritmo e movimentos sinuosos numa representação da vida na sua essência e concepção.
Pois como no jogo de movimentos de dois seres que fazem amor e que através dessa encantadora, mística, pulsante e atraente relação podem gerar uma vida, são a luz e seu consequente calor que mantém acesa essa existência.
E o som resultante dessa relação e reação permite imaginarmos o movimento da vida quando fechamos os olhos. Luz, calor, som... movimento... Não existe vida sem movimento.
E quando um coração para de pulsar e não recupera seu movimento mesmo com ajuda dos recursos médicos que a humanidade descobriu e acumulou durante sua história, a morte se faz presente como o símbolo do fim dos movimentos.
E essa experiência estava acontecendo naquele momento com o empresário Paulo Azevedo. Parecia que esse fim dos movimentos havia chegado a ele. O ataque cardíaco o fez cair em meio de sua sala de reuniões durante sua maior apresentação no lançamento de seu mais novo e promissor produto, depois de uma das mais perfeitas e intensas noites de amor que no auge da sua maturidade ele podia se lembrar. Durante décadas de muito sucesso profissional, seu maior sonho era aquele empreendimento completamente sustentável repleto de inovações tecnológicas.
E sem explicação ele não estava mais ali. Estava naquela escuridão onde nenhuma explosão de luz surgia para salvá-lo. Mas ele ainda conseguia pensar e em seus pensamentos surgiu a imagem de seu filho ainda criança, ali, estático vendo o mar. Ele queria dizer que o amava, mas não conseguia mais, ele não estava mais ali, aquilo já tinha acontecido, não podia mais voltar no tempo. Queria abrir os olhos, sabia que tinha que acordar para ter a chance de achar o filho ao seu lado no presente, chorando pelo pai. E poder descansar em paz com aquela frase tão curta, mas a qual nunca havia pronunciado em todos os seus anos de vida.
Não, não havia luz! A escuridão não terminava e sua mente já ficava mais longe e parecia que estava prestes a ser desligada. Ainda percebia que tinha alguém ao seu lado, mas a sensação de solidão não o abandonava.
Ao lado do pai, mas ao mesmo tempo longe daquela dimensão escura, segurando sua mão, estava André Azevedo. André acompanhou seu pai em cada movimento entre a sala de reuniões, os 30 andares do prédio, a ambulância e o hall de espera do hospital e apesar de raras vezes perceber um esforço do pai em mover os lábios e acordar temporariamente para aquela realidade, ele também estava viajando pela sua própria mente.
Lembrava-se de um pai carinhoso, que se orgulhava de suas conquistas e percebia que aquilo eram apenas memórias forjadas de sua cabeça de desejos que ele acreditou a vida inteira que tivessem acontecido de verdade. Paulo sempre foi um homem guardado dentro de si mesmo, que não demonstrava seus sentimentos para não transparecer fraqueza a seus inimigos. O filho cresceu acompanhando essa frieza, sem a mãe, que morreu em seu parto, aprendeu que a vida deveria ser tratada como uma guerra, cada atitude calculada como num tabuleiro de xadrez. Mas no fundo ele nunca teve amor de verdade. Todos para o pai eram ou peões que deveriam obedecer à vontade do rei ou então peças inimigas.
Agora com a morte do pai se aproximando tentava saber como seria viver sem essa proteção do mundo todo. As decisões deveriam partir dele e não sabia se seu destino era fluir no caminho que o pai trilhou ou explodir em tudo que ficou aprisionado dentro de si.
A movimentação dos médicos com negativas constantes espelhadas em seus olhares não parecia ser um bom sinal.
E então os passos lentos do médico em sua direção, enquanto tirava as luvas e a máscara, já diziam o que não era necessário dizer. E apesar de seus olhos estarem úmidos como se a qualquer momento fosse jorrar lágrimas soluçantes, André se manteve firme, como o pai, pelo menos naquele momento.
- Não precisa dizer nada, doutor!
Apesar de ser homem sério, que não demonstrava sentimentos... Na verdade parecia nem ter sentimentos... Foi esse homem que o criou sozinho. Sempre foi uma pessoa de honra, que valorizava muito seu patrimônio, mas acima de tudo, ético.
Foi isso que disse em sua missa de sétimo dia em seu discurso.
Os acionistas, em tão pouco tempo, mal deixaram o corpo do pai esfriar e já pressionavam o filho de todos os lados. Todos queriam tirar proveito daquela situação.
Aquilo tudo deixava André anestesiado. Completamente sozinho, percebeu que, mesmo contra sua vontade, sua vida se resumia em duas coisas: o pai e o império criado por ele.
Bom, na verdade ele não estava sozinho, sua irmã mais velha estava ao seu lado, mas não significava muito naquele caso.
Eva Duarte parecia ser a caçula entre os dois irmãos, filha do primeiro casamento do pai, de uma época onde ele ainda era só um simples estudante. Sempre cuidando da beleza, de suas roupas de marca, de suas joias, nunca teve um verdadeiro afeto pelo pai e pelo irmão, mais próxima dos pertences e das aparências do que das pessoas.
(Trilha sonora sugerida: Garota de Ipanema - Tom Jobim)
Mas o movimento do seu caminhar pela calçada da praia era completamente hipnotizante. Nenhum homem conseguia fugir o olhar. Mulher bonita que sabe que destrói os corações por onde passa. Um doce e suave veneno mortal. Mais de uma vez viu homens se esbofetearem por ela enquanto gargalhava da situação, pois sabia que ninguém nunca seria seu dono, era ela a dona da situação, de tudo e de todos.
Até que um dia ela viu Moisés. Música alta, iluminação alucinante, muita bebida, gente por todos os lados e mesmo assim os olhares se cruzaram. E aqueles poucos segundos em que os olhos de um encontraram os olhos do outro pareciam eternidades. Típico momento onde tudo desaparece, a privação dos sentidos é total, não existia mais nada. Apenas aqueles olhos. Foi aquele olhar de Moisés que aprisionou Eva como num feitiço, um olhar superior, de quem sabe todas as respostas dos mistérios da humanidade, de quem não tem nada a perder, mas ao mesmo tempo solicito e repleto de vontade de realizar sonhos e desejos.
Mas o que fez Eva se tornar presa fácil, de uma forma que ela jamais pensou que aconteceria foi que Moisés não se dirigiu a ela. E não foi por timidez, até por que era um homem muito seguro, que parecia ter o controle de tudo. Ele continuou ali sozinho dançando e nem a olhou novamente.
Aquela situação foi se tornando incontrolável para Eva. Ela queria ver aquele homem aos seus pés, mas por mais que ela usasse de artifícios que sempre funcionavam quando ela queria alguém, Moisés não caia na dela. Ela se aproximou, parou em sua frente e sua primeira frase foi a seguinte pergunta:
- Você é gay? Nada contra, mas acaba com essa minha dúvida. Você realmente não me quer?
- Garota, você não sabe absolutamente nada sobre mim.
- Então... estou querendo saber!
- Eu não sou gay... sim, eu senti desejo por você... e não...
- Não o que?
- Não serei mais um troféu pra coroar a sua noite!
- Ah, então é isso, você me conhece das revistas!
- Não sou um homem que costuma ler revistas de celebridades, não faço a mínima ideia de quem você é. Mas pela forma como você trata seus amigos, as pessoas próximas e até mesmo o garçom que serviu sua bebida, pude perceber que você quer que eu seja como todos: uma aquisição sua.
- Nossa! Você reparou tanto assim em mim?
- Sou extremamente observador.
- Então tá, tchau!
- Até breve! – Foi essa a resposta de Moisés.
Aquele “Até breve!” foi como um tapa pra ela. Ela virou as costas e começou a pensar, que aquela simples frase queria dizer que ele não iria atrás dela e que ele sabia que ela estava afim o suficiente pra voltar. Ela parou, virou de novo para ele, olhou e voltou, buscando seu beijo. Ele fez que ia beijá-la, inclinou o corpo para trás se esquivando e colocando o dedo em sua boca impedindo-a, sussurrando em seu ouvido:
- Sou eu que escolho a hora do beijo, como e aonde vou te beijar!
Ela perplexa cedeu e ficou dançando com ele. Os dois demonstravam o desejo que sentiam um pelo outro, dançando de forma envolvente e sensual. Até que em um determinado momento ele a pegou prendendo seus cabelos por entre seus dedos a abraçou com força e a beijou de um jeito que a fez perder o chão debaixo de seus pés. Os beijos, as vozes, as mãos, os corpos, juntos no caminho entre a casa noturna, o carro dele e o motel foram detalhes imperceptíveis. Eles não conseguem nem imaginar em que momento a roupa já não mais os vestia, ou quando algo começou ou terminou. A única sensação era de preenchimento, de complemento um do outro, parecia que um fazia parte do outro.
Moisés era um homem muito sedutor, mas sua especialidade era ter as pessoas em suas mãos. Seu interesse não era financeiro, mas emocional. Sabia que era bom em fazer as pessoas só perceberem razão de existir por conta dele.
Mas Eva tinha acabado de se tornar a maior de todas as suas conquistas, sabia que era ela a pessoa certa para estar ao seu lado, para ser a rainha de seu reinado.
Na manhã seguinte, Eva acordou e ouviu o pulsar do coração de Moisés. Usava o peito dele como travesseiro e aquele ritmo a acalmou.
Ela pensou que jamais iria chorar por um coração que parou enquanto tivesse aquele coração batendo bem perto.


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